Nada a acrescentar para o dia que em breve virá. Tal qual uma massa ungida com fermento, noto os dias correndo, pouco a pouco, na monotonia que lhes é cabível. Tão tristes, tão notáveis. Fulguram como retratos dispostos na estante, aos quais evitamos dirigir nossos olhos, com receio de que a essência envelhecida que os circunda modifique-se, o que é estritamente impossível. Acrescento, então, o impossível..
Vejo se estou cercado. Estou. De repente abro as retinas, avisto um paraíso, um pasto bem verdejante, e não quero voltar ao cru cimento do perímetro urbano. Sou a partícula do vegetal, é mister ficar, oprimir-se, espremer-me juntamente com a naturalidade restante no mundo. Incrivelmente me houve a opção de escolher um mundo restante.
Vejo mais uma possibilidade, uma definição para os sentimentos mais argutos, escondidos no interior da cavidade esquerda do coração, imperceptível à minha própria curiosidade. Pelo menos agora omitirei curiosidade, sendo de repente o que sempre desejei ser, mas que desconheço, algo apenas sonhado, irrisório, abstrato. Talvez daí esteja irrompendo a arte da liberdade, arte de ser cativado pelo azulado céu que espera-me, convidando-me para um aprazível voo, um voo legal. Voo de juventude.
Diferenciar rejuvenescimento de “juventude”na medida da razão, sem ousar ultrajar com revólveres e facões ou usufruir dos livros caducados para conceituar uma coisa que anda à flor da pele, pelo menos na casa dos vinte anos.
Ouço apupos, vejo crianças enormes, abre-se ante a mim uma cidade compactada nos muros, incendiadas nos fogões, cravada no coração daqueles aos quais o tempo dera uma trégua, resolvendo passar, deixando-os na tolerância do “carpe diem”.Ah, na próxima vida virei tangido de glória irreverente ou serei diferente para afastar-me o sucesso, vez que é trágico cortar as esquinas a pé, deparar-me com seres hostis apontando-me o dedo, denunciando fracasso, como se a mim estivesse dirigida toda culpa causal. Lesado pelo amor em excesso, e a quem dá-lo? Planejar alguma distante viagem ao nada, saber direitinho aquilo que a humanidade busca de mais trágico após a morte, voltar ileso, contar que atrás da porta há um salão enorme onde existe uma sala banhada de sol matinal, umas mesinhas brancas e nelas sentaremos todos, para discutir o que nos houve, o que festejamos, o que deixamos de festejar, em virtude de tantos compromissos pessoais, tão adiáveis!
Não é odiar, desejar ser fragmento de naturalidade não é perfeitamente odiar o concreto, já que ele nasce, brota de nossos dedos ansiosos. A mesma coisa ocorre com quem retira pausadamente os trajos femininos, deixando à mostra o verdadeiro nascedouro dos homens inteligentes e fúteis. Apresentando, sob rápidas bátidas cardíacas, o corpo onde, diante do qual, não há empresário, sedutor, trabalhador, mercenário, malandro e “corretinho” que resista. Ante a nudez somos reais e corretos, somente uma indesejável casta de ignorantes e um montante de regras tolam condenam-na abertamente, fazendo com que a mesma torne-se precipício brutal às almas perdidas. Ledo engano, em memória de Adão devemos propiciar respeito à nudez inocente, já que não é por conta do corpo que a terra é condenada. Se nudez condenasse mesmo, o abismo andaria maquiado e vestido com primor, habitaria nossos lares, dar-nos-ia filhos, partilharia conosco nosso leito...
Ora, serei mais racional. Produzirei no fundo do poço e lhes contarei o que há por lá. Há os transeuntes que passam perto, adejam, nada mais, incapazes de mergulhar a fuça e cheirar o covil aberrador. Ninguém há que tenha mergulhado no final de uma coisa: de um amor,de uma atmosfera. Quando perde-se algo, vem a revolta, se houver morte há desespero, caso contrário a bonança aparece, após as lágrimas, conforme afirma o trecho de um salmo, cujo número não me lembro. Até na morte poderemos sorrir , se quisermos. Na racionalidade a morte espanta a crua fantasia e não há pintura nem violões. Há cimento, há cinza e , contudo, ficamos mais reais e verdadeiros. É a sabedoria pausada, meditada,e isso é ser livre. Não ser livre para fustigar o corpo e o espírito, mas sim provar e aproveitar com estultícia algo chamado - experiência. Não perder tempo entre quatro paredes, entre portas e janelas, ideando mundos e fundos ao passo que a humanidade torna-se vivaz, mantenedora do seu processo evolutivo; pisemos na praia, entremos na onda do mar aberto, Deus é por nós, e veremos no que dá. Dosagem é o princípio, racionalidade é a chave.
O tempo é a dura carne que não amoleceremos. O tempo resiste a carícias, nao sorri recebendo rosas no dia dos namorados. O homem que se tranca, perde o bonde, fica à deriva, e perde a chance de provar o mais doce dos prazeres: o prazer de viver.
E chega o tempo, solapa tudo. E aí não restará mais nada, a não ser a possibilidade daquilo que poderia ter sido e que não foi, e uma puta dor de corno_.
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