2 de jun. de 2011

Um Amor Bege

Eu posso compor um conto além da pele, caso eu não mais corresponda afirmativamente aos mandos das células do meu tecido epitelial, todavia o coração precisa sentir. Sentir e amanhecer, eis a regra interminável do jogo de viver...Amanheci na penumbra da ausência das horas, defendendo a causa do conforto de uma folga qualquer, acordando depois do horário que fixei propositalmente para o meu progresso, mas isso faço normalmente, apenas nas folgas.

Daria um trecho a melosidade ociosa de um humor que se definha em região serrana – o que é mesmo lamentável. Tal é o meu humor. Procurar quem se ama, no vazio antagônico deste apartamento, naufraga qualquer coração em lamas bossais. Alguma canção, algum verso decorado para alimentar a saída ininterrupta de dados pelos neurônios..e não..não confundirei ciência com poesia, pelo menos agora.

Sobressaio de pensamentos descobertos pelas minhas mãos, e no flagra inesperado os dedos correm para escrever alguma carícia para alguém que encontra-se longe neste momento. Estranho ter que sobressair-me dessa forma. Sinto-me com pé na rotina literária ao tentar fazer tal ação, mas paro e contenho-me: careço fazer, verdadeiramente, algo diferente, já que pelo menos umas vezes as palavras não bastam.....

Quis a solidez de um ato, um ato sólido, na acepção máxima do termo. Não aglutinar-me ao passado, reencontrar a envelhecida casa grande, os equinos, a fumaça da inesquecível infância vazando à atmosfera, entre moléculas de monóxido de carbono. O que fazer?Ativar o telefone, cortar o fio das ondas com minha rouca voz de sonolência?Ah, se não fosse tão desprezível esse inverno com falsa ornamentação primaveril, falsas flores geladas, as pessoas concorrendo pela mesma satisfação, um status quo, uma segurança intelectual e monetária, esquecendo que apenas de água, pão e amor é de que se vive o homem; pude, por alguns minutos, olhar com atenção o movimento pausado da avenida que toma conta da moldura da janela: uma árvore ociosa. E não mais posso olhar, também, aquilo que de repente pude - uns transeuntes, umas moças papeando um ponto qualquer, senhores comportados rumo ao trabalho, bebês na abstinência do pecado, alcoólatras disfarçados, vestidos de cidadãos de bem...

Por um momento desejarei um sonho: sonhar com quem ama-me. Mesmo que as centenas de matas, espécies de vegetais, quilômetros infindáveis de asfalto negro e esburacado nos separem, sonhar ainda me é permitido. A ação do sonho é gratuita. Sem perguntas contrárias, sem indagações e na mesa alva do microcomputador, ladeando a estante, o livro marcado ainda pelo início – uma seleta rudimentar de contos de Carlos Drummond de Andrade – bom ao nosso ânimo mineiro ( antes dele prefiro Paulo Mendes Campos e o bom Rubem Braga, fornicadores da poesia noturna carioca...onde aprendi que uma crônica saborosa afasta-se da poética diária, com suave e eficaz beleza).

Por um momento desejarei uma escrita relevante, que não impressione eruditos, falsos parnasianos, modernistas alagados em queixumes didáticos, poetas que aprimoram-se erroneamente pelo efeito tétrico da rima, o que detesto em demasia. Preciso, por ora, do verso genuíno, aprendido, sobretudo, com os autos do amor. O amor não é posse nossa, existe para ensinar-nos, outrossim. Quem dirá algo contrário?Já que amanhecemos por amor à vida, já que tomamos banho (embora uns estejam associados ao “banho de gato”) por grato amor ao corpo, amamos nossas mulheres pelo amor de nós mesmos, acredite. Aquele que ama cuida de outrem e cuida de si, simultaneamente.

Nada de momentos, por aqui. Na esquina irrompe um casal matuto, desses bem simples. A mulher olhando a riqueza urbanística daqui do bairro, à proporção que o seu marido caminha um tanto mais à frente, para amainar os ânimos do molecote bege que espanta os passarinhos. Esse mesmo molecote corre dois metros a frente , esquece os passarinhos, apanha qualquer coisa no chão e plasma o que apanhou atentamente curioso, e em seguida olha-me. Respondo com um bom sorriso, também olhando o que ele pegara – uma pequena caixa de papelão , completamente desfigurada e pisoteada.

Ele esconde-a debaixo da blusa e vai-se embora, defendendo o que para ele, agora, se torna o ponto máximo da peça, valioso e de extrema positividade..E para mim o amor é isto: um molecote bege carregando uma caixa pisoteada, correndo pelo bairro afora._

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