Aula de Poética e Servilismo ao Amor
Amor com potência, amor que se define na máxima desta vida: passá-lo adiante. Relembro um amigo poeta, um pouco antes de seus esponsais, possivelmente uns três dias antecedentes à mesma. O deus de foto da paixão pareceu incendiar-lhe as órbitas toda vez que ele, Flávio, relacionava-se à sua amada, em voz útil e infantil, contendo queixumes, promessas pertinentes à graça de se querer viver satisfeito, em âmbito conjugal.
Posso chamá-lo ( e quero), de poeta Coutinho. Vezes tantas me dissera que sabe rascunhar com exímia rima uns poucos versos. Li uns, decerto. Senti uma repressão romântica num homem praticamente parnasiano, até no trato e na lida do dia a dia. Fino , polido, ama os mares, vez que neles aventuram-se seus olhos que fitam a amada distante, acenando-lhe vivamente, na promessa da farta e recíproca oferta corporal, coisa que, conforme sentimos, está presente nos amantes de verdade, cúmplices da arte de viver.
Flávio, um nome que deve fugir às tramitadas da gramática, passando a ser adjetivo, apresentando uma qualidade qualquer ,numa situação aparente. O amigo ressurge das mais escondidas dobras de treva do cotidiano, estende-me a felicidade de que o amor é presente e , assim, posso sorrir com enfática liberdade. É possível que, lidando com ele, aprendi que versos carecem de métrica e sonoridade, escapando um tanto das emoções, o que fere o coração de todo vate emotivo.
Entretanto, jamais encontrei, ainda em vida carnal, homem mais farto de seus suspiros convencidos. A toda hora faz surgir um caso novo ,um passeio dado no final de semana, com sua companheira. Algum detalhe precípuo da vaidade das mulheres, predileção por músicas curiosos, tudo que rodeia o universo feminino, mais acirrado que equações matemáticas, das impossíveis!
Flávio e suas recordações maravilhosas. A busca pelo esforço e pelo crescimento, a modéstia de haver feito um curso em computação, ajeitar o micro dos amigos, rir à farta do cotidiano alheio, havendo horas em que impõe suas ordens com severidade espontânea, porém tudo na máxima superficialidade amiga.
Talvez esse pota, marginal na arte urbana, almejando alguns contatos acadêmicos, publicar meia dúzia de versos em jornal local e sambar fora, seja um de espécie rara. Arrefecido pela maturidade adquirida ainda criança, não atina para o universo da paixão de carne e osso, não se oferece ao sentimento como se deveria, e há muitos motivos, talvez, por esse recusa desimportante: algum refreamento religioso, algum erro cometido, alguma venda posta em seus olhos abertos e constantes.
Todavia, o meu bom parnasiano não me causa dor de cabeça. Num dia nublado e inútil , após eu ter madrugado, indo em direção à plataforma de estágio técnico em cidade vizinha daqui e amassado muito barro avermelhado e cru, relembro meu companheiro de trabalho e poeta. Mês passado fui congratulado com a honra de acompanhar sua cerimônia de casamento e acompanhar o poeta na íntegra, sorridente, trajando um terno com gravatinha borboleta escura, um paleto alinhado no esmero do traje, e um sorriso que contaminou todos os que se mantiveram presentes até o final. Pensei comigo – Deus é mesmo grande - e principiei a recordação de nossas conversas, idos e vividos de muitas, mas intensas emoções ingênuas, onde o poeta , recatado, mas querendo explodir de amor, me confidenciava coisas e versos, e nós dois líamos, em apoio mútuo, nossas sugestões, na passividade emotiva de dois grandes confrades.
Na cerimônia aprendi uma coisa, ao recordar a primeira canção que batizei no início do meu namoro, Todo Azul do Mar (Flávio Venturini), na voz macia do mineiro, oriundo dos truques secretos do Clube da Esquina. Aprendi a seguinte lógica:
- Verdadeiramente, o amor é mesmo um bem azul....
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