3 de jul. de 2011

A JANELA QUE ME CRIOU

Sem a amplidão e esquecimento ,a plenitude da calmaria urbana desenrola-se com pertinaz eficácia , clara, límpida , tal qual o imenso janelão da antiga casa- grande da fazenda onde criei-me , pelos lados de Tinguá, bairro resoluto em matéria de produção rural. Presumo que aqueles paredões pétreos e úmidos, sedimentados na permanência cronológica, ainda perpetuam os fragmentos que merecidamente são evocados pelo coração da lembrança. O que poderia ser sem amplidão, diante desse fato? A que meu coração deseja amarrar-se com gás sorrateiro, não antevendo a dolorosa solidão de todo apego ao pretérito ?

Porém, declaro que tentei perguntar todo esse quesito de pretérito patológico à cidade, anfitriã desses espaços , acerca do que eu poderia arrumar de pretexto , adiando todo e qualquer contato emotivo com esse paisagismo adormecido, por sempre atual e natural. Cada ser humano urbanizado deve refletir pautado em seus ideais, filosofias solidificadas, amores pungentes, coisas que os olhos anexam na surpresa dos reencontros noturnos, de modo que o coração possa aquilatar , com zelo e pronta atenção, a joia cintilante que nascerá dessa reflexão.

O nascimento de uma joia galvânica , sem tanto quilate, desprovida de enfeite - assim como a paisagem do pretérito se julga configurada no presente . Não atrevo-me a engenhar os vegetais, os humanos, nem metais nem veículos densos. Vejo, outrossim, a substância necessária à minha vitalidade cidadã , que encontra-se arraigada no solo, encimando as possibilidades de deserto e medo, detendo-me da caminhada por estradas turvas e escuras. O que gostar, o que posso fazer , o que contribuir para que os imensos paredões da Fazenda São Gonçalo da Serra retornem oriundos do genérico olimpo, trazidos pela falta flamejante do cheiro pesado de vegetação impregnada de orvalho – no cio material de um modesto latifúndio vassourense . Luzes, o que poderiam ser? Feixes solteiros, constituídos imaterialmente, estilhaçados no raciocínio vadio das cercas e , no entanto , meu testemunho de breve existência sai à caça de uma pretensão de memória. Encontro jacarandás, a trêmula mão de Ernani , estimado boiadeiro que tangia junto a mim uma determinada parcela de garrotes nelores, a qual não mais saberei especificar com exatidão. Não seriam só as viagens, pelo que viagens assim não traduzem um homem – Ernani eu traduzo pela força motriz do peito – era ele o elemento uno, precípuo, do esforço e da dedicação à terra , ao solo agrário, merecedor de um capítulo especial, no qual farei uma somatória de todo seu aparato humano não produtor. Trarei a perseverança de um povo modesto, liquefeito em dedicação, em préstimo, que são o prêmio exumado desta terra. Não possuem títulos, lotes arrendados, mas lidam como toda sorte de rudimentos agrários. São permanentes, inteligentes, conseguem tocar com uma sutileza nunca vista no ponto G do coração. É exatamente o que o lado urbano ainda não conhece – a poesia que brota do solo, irrompendo em versos por intermédio das mãos calejadas de Ernani, ou na sua fala extensa contanto causos impossíveis, manobras, viagens, terras e gentes que jamais vi.

Portanto, relembro algo para a fome dos meus olhos, razão para meu instinto , sonoridade boa para meus ouvidos jovens que tiveram de converter-se à crença urbana, matriz desta cidade. A persistência dos momentos, o azedo elementar com o odor da naftalina que defumava o pesado armário de madeira roxa do meu quarto. Os longos contatos com Monteiro Lobato, escritor paulista que me vinha às mãos através de uma coleção de obras suas, editadas na década de quarenta – nascendo também meu apego arredio à literatura.

A cidade crê, as paisagens creem e existem ainda mais acentuadamente, a ponto de notarmos e sentirmos, agindo concomitantemente cada cidadão perpétuo que sabe venerar com êxito o valor de uma terra histórica. A filosofia do tempo é perfeitamente idêntica à janela da fazenda onde criei-me e um dia a minha criança interiorizada entenderá bem o valor de uma ação : a de relembrar a janela que me criou._

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