13 de jun. de 2011

Dia dos Namorados

Raramente alguém experimenta um dia dos namorados de forma diversificada, tumultuada, sábia e não errante, distanciado de bombons. Aflora-se uma bela manhã cinzenta e logo penso em presentes sólidos, mimos românticos, essas coisas , sem esquecer-me de que, por eu ter que trabalhar nessa data, é necessário investir em mais uma possibilidade de um futuro realizado – o que é severamente bom ( e que denominamos “sonho”).


Geralmente, numa manhã acinzentada nesta cidade, não se há por que memorizar cores, repensar idos passados, tentar se respirar, amiúde, a tocante fragrância das flores passadas. Flores com prazo de validade expirado. Trata-se agora de uma inteligência viril incolor, inodora e insípida – o que foge, abusadamente , do nosso conhecimento.

Algo a valer, nem que seja um pensamento; não uma conturbação de idéias, um teatro vago de suposições caóticas, versos rimando, uma contradição de corações ardentes reclamando mais proximidade..e de repente as flores cinzas...cinzas...

Felizmente, na noite anterior, chega-me a certeza de que uma bela surpresa depontará amiga, aninhar-se-á no meu peito, sentindo-se realizada. Esses afrouxos poéticos que nos embaralham nas curvas do coração amante. Como de praxe levantei-me, após haver ficado tangenciando o silêncio circundante no quarto vago ( apenas lotado de livros e mais umas coisas ), com o meu corpo estirado na cama, enrolado no cobertor adiposo, ansioso para mais uma investida cotidiana. No entanto investi, embora forçosamente, em levantar-me.

De repente um segredo nato – desses que os decentes de bem amoitam na nobreza do peito – na sombra necessária que cativa quaisquer espécies de curiosidade. Tão somente um segredo. Nada sério e nem me senti desencantado, aplaudindo erroneamente o desfecho da comédia, claudicando emoção desconexada da realidade ( pois até para aplaudirmos, precisamos manter nossos pés firmemente grudados no chão frio e cru).

Resta-me contrapor o ritmo amuado da canção na novela da esperança. Quem sabe ocorra-me uma coisa que há muito espero ( a possibilidade do meu corpo poder entranhar-se na vagueza do amor, conhecer profundamente o que verei como mistério futuro).Uma esperança nada sólida.

Entretanto eis a data. O tão procurado dia 12, enquanto as mães aninham seus filhotes, as metralhadoras exprimem a debilidade de um salário decente, fomes e mais fomes avassalam meus irmãos carnais recônditos, também, nalguma esperança. Dia 12, uma dúzia inteira de cartões cromados, roletas abarratodas de bolsas baratas, dessas de alcinha tacanha, madames com fones de ouvido de marca que desconheço por ora, em virtude de uma necessária abstinência aos preâmbulos da tecnologia numa manhã cinza, tal qual a de hoje.

Para mim, no entanto, o 12 é o triunfo pessoal de quem batalha pelo amor, sem pretender ou querer angariar nada dele, exceto a atenção da namorada. Sem desespero de telefones aloucados , brindando a sorte do encontro de duas vozes, ambas aveludadas e amantes – sem fel. Como é cinza em pleno dia 12, pode ser que haja amor na frieza dos muros do prédio aqui, na mudez cadenciada do interfone que , distantemente, corrige meus anseios quanto à distância que percorrerei até o futuro.

Por ser tudo cinza, a caracterização das faces amuadas dá-se pelo advento dos corações jovens, sem envolvimento algum com indecências doutrinárias, defesas pusilânimes, saúdes frágeis. Uma advenção de espírito para que todos os amantes comemorem, em modo completamente íntimo e particular, uma boa nova digna de contemplação sincera – tal que houvera comigo : o recebimento de um singelo recado pelo orkut, mencionando uma aprovação, uma conquista.

Depois que voltei do trabalho ( já compreendendo a importância do 12 e do “cinza”),sentei, vexado pela comida fumegante avassalando meu estômago; comecei a relembrar minha torcida e expectativa empregadas nuns dias anteriores e vi que valera a pena. Os dogmáticos, os melosos, até mesmo os bem dotados perdoem-me. Sem flores, bombons e intervenção comercial , curti um Dia dos Namorados curioso ao extremo: paralisado, ante a tela do microcomputador, e a seguinte mensagem: Amor, passei na UERJ!

E na mesma data houve um milagre: todo aquele cinza, por livre justiça, converteu-se num aberto e merecido painel solar._

2 de jun. de 2011

Um Amor Bege

Eu posso compor um conto além da pele, caso eu não mais corresponda afirmativamente aos mandos das células do meu tecido epitelial, todavia o coração precisa sentir. Sentir e amanhecer, eis a regra interminável do jogo de viver...Amanheci na penumbra da ausência das horas, defendendo a causa do conforto de uma folga qualquer, acordando depois do horário que fixei propositalmente para o meu progresso, mas isso faço normalmente, apenas nas folgas.

Daria um trecho a melosidade ociosa de um humor que se definha em região serrana – o que é mesmo lamentável. Tal é o meu humor. Procurar quem se ama, no vazio antagônico deste apartamento, naufraga qualquer coração em lamas bossais. Alguma canção, algum verso decorado para alimentar a saída ininterrupta de dados pelos neurônios..e não..não confundirei ciência com poesia, pelo menos agora.

Sobressaio de pensamentos descobertos pelas minhas mãos, e no flagra inesperado os dedos correm para escrever alguma carícia para alguém que encontra-se longe neste momento. Estranho ter que sobressair-me dessa forma. Sinto-me com pé na rotina literária ao tentar fazer tal ação, mas paro e contenho-me: careço fazer, verdadeiramente, algo diferente, já que pelo menos umas vezes as palavras não bastam.....

Quis a solidez de um ato, um ato sólido, na acepção máxima do termo. Não aglutinar-me ao passado, reencontrar a envelhecida casa grande, os equinos, a fumaça da inesquecível infância vazando à atmosfera, entre moléculas de monóxido de carbono. O que fazer?Ativar o telefone, cortar o fio das ondas com minha rouca voz de sonolência?Ah, se não fosse tão desprezível esse inverno com falsa ornamentação primaveril, falsas flores geladas, as pessoas concorrendo pela mesma satisfação, um status quo, uma segurança intelectual e monetária, esquecendo que apenas de água, pão e amor é de que se vive o homem; pude, por alguns minutos, olhar com atenção o movimento pausado da avenida que toma conta da moldura da janela: uma árvore ociosa. E não mais posso olhar, também, aquilo que de repente pude - uns transeuntes, umas moças papeando um ponto qualquer, senhores comportados rumo ao trabalho, bebês na abstinência do pecado, alcoólatras disfarçados, vestidos de cidadãos de bem...

Por um momento desejarei um sonho: sonhar com quem ama-me. Mesmo que as centenas de matas, espécies de vegetais, quilômetros infindáveis de asfalto negro e esburacado nos separem, sonhar ainda me é permitido. A ação do sonho é gratuita. Sem perguntas contrárias, sem indagações e na mesa alva do microcomputador, ladeando a estante, o livro marcado ainda pelo início – uma seleta rudimentar de contos de Carlos Drummond de Andrade – bom ao nosso ânimo mineiro ( antes dele prefiro Paulo Mendes Campos e o bom Rubem Braga, fornicadores da poesia noturna carioca...onde aprendi que uma crônica saborosa afasta-se da poética diária, com suave e eficaz beleza).

Por um momento desejarei uma escrita relevante, que não impressione eruditos, falsos parnasianos, modernistas alagados em queixumes didáticos, poetas que aprimoram-se erroneamente pelo efeito tétrico da rima, o que detesto em demasia. Preciso, por ora, do verso genuíno, aprendido, sobretudo, com os autos do amor. O amor não é posse nossa, existe para ensinar-nos, outrossim. Quem dirá algo contrário?Já que amanhecemos por amor à vida, já que tomamos banho (embora uns estejam associados ao “banho de gato”) por grato amor ao corpo, amamos nossas mulheres pelo amor de nós mesmos, acredite. Aquele que ama cuida de outrem e cuida de si, simultaneamente.

Nada de momentos, por aqui. Na esquina irrompe um casal matuto, desses bem simples. A mulher olhando a riqueza urbanística daqui do bairro, à proporção que o seu marido caminha um tanto mais à frente, para amainar os ânimos do molecote bege que espanta os passarinhos. Esse mesmo molecote corre dois metros a frente , esquece os passarinhos, apanha qualquer coisa no chão e plasma o que apanhou atentamente curioso, e em seguida olha-me. Respondo com um bom sorriso, também olhando o que ele pegara – uma pequena caixa de papelão , completamente desfigurada e pisoteada.

Ele esconde-a debaixo da blusa e vai-se embora, defendendo o que para ele, agora, se torna o ponto máximo da peça, valioso e de extrema positividade..E para mim o amor é isto: um molecote bege carregando uma caixa pisoteada, correndo pelo bairro afora._

18 de mai. de 2011

Crueza e Identidade Alagoana


No ginásio, exatamente no segundo ano, tive a honra de provar a acidez de Graciliano Ramos e lucrei com isso. Realidade em demasia, crueza, quentura, algo depreciativo, contraparente ao palor suave das musas de Byron.

De repente, nasceu meu amor pelas narrativas de bom senso. É que, no geral, meu cotidiano exige que o texto de Graciliano Ramos dê um arremate realístico às coisas, aos fatos, às pessoas. Contudo, ao lê-lo, sinto uma forte aproximação com um lado subjetivo que há em mim: um autor prestes a explodir sem temperança, numa tempestade abusada , composta de gestos, sensações e ideais abafados.

Em Vidas Secas por exemplo, deparei-me com um ponto interessante: vendo a estrutura elementar de uma sociedade , a sua célula - a família, vagando por mandacarus, adejando seixos, na procura pelo conforto, e o mais doloroso: a imagem de Fabiano, tolhido pela má sorte de não possuir recursos , mostrando um termo : limitação acidental. Daí pude colher mais alguma coisa: a família não era tão decente assim, como me chegava às mãos nos livros coloridos...

Nada poético. Nota-se cada personagem habituado ao seu meio, ao seu habitat, numa interligação impressionante; cada qual aprova as áridas nuvens brancas, os azuis que endoidecem, as longas caminhadas feitas a pés enxutos, diferente da atuação supra divina, ocorrida com Moisés (ver êxodo bíblico – êxodo significando “saída, escape”), atravessando o Mar Vermelho, juntamente com vários hebreus amedrontados e descrentes. Os “personas” de Graciliano estão presos a terra.

Em Graciliano Ramos, declaro “divino” a rara pitada lírica apresentada em certos trechos, dispostos no conjunto de sua obra. Pena erudita, nota-se um homem conformado com a existência, embrutecido graças ao acidente de ter aprendido a ser brasileiro a duras penas, no viço do sufoco.

E com esse autor travei importante batalha artística. Versado no romantismo como sou, em voo aplainado entre os sonetos, exalando queixumes interpostos entre o senso e a razão do coração, custei a encontrar a valiosidade integral do texto de Graciliano Ramos. Dose letal de tédio conforme os Sertões ,de Euclides da Cunha, logicamente este em época e contexto histórico completamente diferentes, todavia ratifico o teor literário, fazendo uma comparação entre ambas as obras.

O condenado aos arroubos do comunismo, sendo encerrado em cadeia na década de 30, onde trava amizade com seres bárbaros, que lhe legariam , futuramente,o o firme seio de uma obra prima, chamada Memórias do Cárcere, inclusive em virtude da morte do autor, uma parte do volume II permanece inacabada.

No entanto, a marca deixada pelo belo alagoano é um presente a todo leitor. Durante o ensino médio, onde vivi , embora relutantemente, analisando o universo de forma desenxabida, vi que a importância e a qualidade desse autor me legariam bênçãos, dentre as quais cito, sem medo de errar, um estilo enaltecido pela erudição, com um jeito introspectivo, metido a Lispector. Jamais comporei algo como A Paixão Segundo G.H, o ápice da ucraniana, mas na antevisão da realidade plasmo algo equivalente.

E deixando Byron encimando sonhos e possibilidades, passeando por J.Montello, aprendi que todo bom poeta deve passear pelas áridas terras alagoadas, queixar-se com Fabiano, ter uma Cachorra Baleia, e chorar a morte dela junto aos meninos, curiosos..os “diabos com ideia”. Todo homem que presa sua predileção, seja o que for, precisa levar em consideração a seguinte assertiva : seguir em frente, conhecendo cada detalhe causador de apetite.

Dessa forma adquiri algum caminho literário,quem sabe, e parafraseando Jorge Amado : nascia-se um escritor.

Na graça de Graciliano, o veio artístico viera mais forte. E encosto seus livros na estante, nobremente satisfeito.

14 de mai. de 2011

Aula de Poética e Servilismo ao Amor


Amor com potência, amor que se define na máxima desta vida: passá-lo adiante. Relembro um amigo poeta, um pouco antes de seus esponsais, possivelmente uns três dias antecedentes à mesma. O deus de foto da paixão pareceu incendiar-lhe as órbitas toda vez que ele, Flávio, relacionava-se à sua amada, em voz útil e infantil, contendo queixumes, promessas pertinentes à graça de se querer viver satisfeito, em âmbito conjugal.
Posso chamá-lo ( e quero), de poeta Coutinho. Vezes tantas me dissera que sabe rascunhar com exímia rima uns poucos versos. Li uns, decerto. Senti uma repressão romântica num homem praticamente parnasiano, até no trato e na lida do dia a dia. Fino , polido, ama os mares, vez que neles aventuram-se seus olhos que fitam a amada distante, acenando-lhe vivamente, na promessa da farta e recíproca oferta corporal, coisa que, conforme sentimos, está presente nos amantes de verdade, cúmplices da arte de viver.
Flávio, um nome que deve fugir às tramitadas da gramática, passando a ser adjetivo, apresentando uma qualidade qualquer ,numa situação aparente. O amigo ressurge das mais escondidas dobras de treva do cotidiano, estende-me a felicidade de que o amor é presente e , assim, posso sorrir com enfática liberdade. É possível que, lidando com ele, aprendi que versos carecem de métrica e sonoridade, escapando um tanto das emoções, o que fere o coração de todo vate emotivo.
Entretanto, jamais encontrei, ainda em vida carnal, homem mais farto de seus suspiros convencidos. A toda hora faz surgir um caso novo ,um passeio dado no final de semana, com sua companheira. Algum detalhe precípuo da vaidade das mulheres, predileção por músicas curiosos, tudo que rodeia o universo feminino, mais acirrado que equações matemáticas, das impossíveis!
Flávio e suas recordações maravilhosas. A busca pelo esforço e pelo crescimento, a modéstia de haver feito um curso em computação, ajeitar o micro dos amigos, rir à farta do cotidiano alheio, havendo horas em que impõe suas ordens com severidade espontânea, porém tudo na máxima superficialidade amiga.
Talvez esse pota, marginal na arte urbana, almejando alguns contatos acadêmicos, publicar meia dúzia de versos em jornal local e sambar fora, seja um de espécie rara. Arrefecido pela maturidade adquirida ainda criança, não atina para o universo da paixão de carne e osso, não se oferece ao sentimento como se deveria, e há muitos motivos, talvez, por esse recusa desimportante: algum refreamento religioso, algum erro cometido, alguma venda posta em seus olhos abertos e constantes.
Todavia, o meu bom parnasiano não me causa dor de cabeça. Num dia nublado e inútil , após eu ter madrugado, indo em direção à plataforma de estágio técnico em cidade vizinha daqui e amassado muito barro avermelhado e cru, relembro meu companheiro de trabalho e poeta. Mês passado fui congratulado com a honra de acompanhar sua cerimônia de casamento e acompanhar o poeta na íntegra, sorridente, trajando um terno com gravatinha borboleta escura, um paleto alinhado no esmero do traje, e um sorriso que contaminou todos os que se mantiveram presentes até o final. Pensei comigo – Deus é mesmo grande - e principiei a recordação de nossas conversas, idos e vividos de muitas, mas intensas emoções ingênuas, onde o poeta , recatado, mas querendo explodir de amor, me confidenciava coisas e versos, e nós dois líamos, em apoio mútuo, nossas sugestões, na passividade emotiva de dois grandes confrades.
Na cerimônia aprendi uma coisa, ao recordar a primeira canção que batizei no início do meu namoro, Todo Azul do Mar (Flávio Venturini), na voz macia do mineiro, oriundo dos truques secretos do Clube da Esquina. Aprendi a seguinte lógica:
- Verdadeiramente, o amor é mesmo um bem azul....

3 de mai. de 2011



Em se tratando de amor, o homem não deve colocar freio nos próprios pés. Há a dúvida, o desencontro do peito com as coisas da atmosfera , enfim. Por segundos, larguei a feminilidade egocêntrica de Balzac, naufragada nos salões suntuosos da França, ou mesmo a dulcíssima Angélica (de Serge e Anne Golon), marcando ponto pelos corredores do Louvre Musée, atapetados, convidativos aos contempladores de toda obra bela... Entretanto, também não poderia eu supor que seria agraciado da forma que fui.

Prontamente recordei-me das antigas felicidades, as quais alcunho por ora, em total segurança, de antigas paixões, vez que química desenfreada não gera solidificação. Caminharam comigo, de diversas formas, todas singulares: a pequena explosão literária, num jornal local, arrancando dois prêmios em academias distintas, não diferentes no conteúdo . Meu encontro com a música de uma forma curiosa, crendo numa casualidade impossível aos viventes. E, finalmente, feito broto de arte, um reencontro com o amor. Dias seguidos passei calculando a dimensão da felicidade a sós, até dar-me com a face na parede dura, aprendendo que só se é feliz quem vive em conjunto , segundo reza os ditames da sociologia e do coração. Fora tiro e queda, abandonei as paredes e estou feliz, de fato.

Em se tratando de coragem, temos que ser indomáveis racionalmente; podemos optar por aquilo que causa em nós um anseio positivo. Nem sempre aprisionar-se é o caminho mais correto a seguir-se . Jamais! Numa dada época eu busquei criticar aquilo que eu supunha conhecer, e amiúde teci críticas severas e houve morte de poesia. Ressenti-me vendo que minhas sinceridades boiavam pelo ar, aspirando coisas não melódicas, mas espaçadas, desconexas, desencontradas da simplicidade da vida e do sentimento. De certa forma, a poesia que quase morreu não chegou a colocar as asinhas de fora, para gáudio meu.

Em se tratando de passado, apenas agradeço. Contive-me em curiosas épocas, todas singulares. O cavalo, ser que me ensinara muito, é um animal que coloco intencionalmente no rol dos “racionais”. Ele vela , está certo, coloca-se em frente a qualquer perigo. E é amoroso, sem querer em troca adornos e objetos galvanizados de vaidade. Olho os frutos dos dias idos e agradeço novamente . O encontro com a espinhosa poesia solitária de Bandeira, a maneira desleixada e pomposa dos cronistas cariocas, em especial Rubem Braga e Antônio Maria, este último naufragado boêmio, a poesia simples de Quintana, dependente de hotéis, redações, traduções e possibilidades futuras. Dias idos, coisas que me pagam a tarefa crua de escrever, em tempo demais maravilhoso na minha vida ( quem ama, de repente se esquece dos livros queridos).

Em se tratando de Sarah, não posso deixar de cultivar uma pequena rosa de gratidão por tudo que ela me tem direcionado, em atenção que tem poder cumulativo. Dobram-se os dias, se torna mais intenso. Seus olhos , sua busca interminável pelo que preciso. De repente, ao lado dela, não posso sequer ser o artista, ou um ser normal, que vagueia involuntariamente em meio às torturas do cotidiano, buscando por um futuro melhor. A minha ajudadora que , de certa forma contempla, a seu modo particular e maravilhoso, as minhas conquistas e os meus atravanques, o que faz parte .Em se tratando de felicidade, não posso terminar este relato sem dar o título merecido , que é o amor, e com ele a mulher a amada.

Em se tratando de felicidade, melhor ser é feliz.

14 de abr. de 2011

O Vestido

Daqui a algumas horas, algo me consumirá o peito e será bem vindo, porque o ato de consumir, em virtude da sinceridade, fará o bastante. Um consumo verde, espalhando pelo meu cérebro artigos ecológicos...O que será o “bastante”àquilo que consome? Me lanço ao transporte sem indagar, apenas queixando-me da oportunidade não tida antes. Timidez...no escuro da prepotência cardíaca somos super-heróis insuperáveis mas, ao vermos a primeira nesga de luz de sol, somos os mais baratos e fracos insetos, numa doce vivência de morcegos racionais.

Mais minutos passam, nem diria que são covardes por passarem tão depressa. Ela, ******, dissera-me que comprou um lindo vestido azul- verde (que melhor caracterizei de verde, propriamente dito)e mostrá-lo-á a mim. Olho pela janela da condução pública, meditando , desde já, na ostensividade e a prepotência desse verde, tão esperado feito um aniversário que entrará para o século, mais ilustre que a radioatividade feroz de *Chernobyl – mas nas usinas não há coisas verdes..

Seguindo trajeto, ******, liga-me, indagando a localidade pela qual vou passando.”desçando a serra, *****”. A tímida voz coloca-se a perguntar se estou bem, mas o faz numa suavidade, sem querer comprometendo o sigilo do dito vestido....a isso atento, envaidecido...'' ao chegar, me dê um toque” - pude, por fim, sentir o roçar do tecido na desejada pele curiosa..pele que envolve o vestido.

Algumas horas voaram verdes. Folhagens beiram à pista, semáforo verde indica liberalidade para os veículos ansiosos. Verde na tonalidade cintilante de uma piscina abandonada. Partículas de tintas esverdeadas numa modesta faixa decadente na esquina da serra, e meus olhos verdes direcionados ao retrovisor...profundos olhos indagando acerca da existência de uma cor deveras curiosa.

Após um reboliço de pessoas das mais variadas localidades e personalidades, minha seriedade filia-se ao coração. Deixo o instinto devorar a razão, numa fome de loba. Não serei criativo para tropeçar mais uns passos, e a questão é acomodar-se no arrocho do duro banco, curtindo viagem por um bairro simples , nas terras próximas de onde nasci. Onde há placas verdes...tantos açudes, uma flora encantadora de partes verdes...imagino cada grão enfiado num pequeno vestidinho verde, baloiçando à melhor brisa da quentura carioca da baixada..e no entanto chego ao local. Apressado , corro ao encontro daquilo que esperei durante horas intermináveis. Não sendo fácil encontrar, recorro ao celular para certificar-me das horas. Há alguns minutos antes, tolerei minha paciência. Agora, não há como tolerar a minha razão de ser. Estou disposto a encarar o esperado. Olho para os lados, vejo construções desencontradas, um deserto povoado de desejos e sonhos sepultados pelo ar, na catacumbas da arte. Sem crença, fé e desavença, embarco na esperança. De repente, uma sonido tímido corta os demais passantes, que fogem sabe Deus do que. Correm, mas para dar passagem ao mimoso vestidinho verde que aparece sorrindo. Para o escambau todas as dúvidas, suposições ,preconceitos, ideias pífias. A coisa é simples.

Olho para o vestidinho – o rumo do tão esperado instante. Há o enlace, o abraço demorado ( que abraço!) e necessário cruzar de nossos olhos. A dona do vestido olha-me, na dúvida da posse antevista pelo seu coração, que me aguardava na estação de trem. Detrás dos óculos escuros, me comovo. Abraçar o que se esperara, não tem preço. Eu, pelo que sei, para sempre verei que vestido verde tem poderes, e qual o doce sacrifício de descobrir, em meio à multidão, o verdadeiro segredo de um vestido que, de fato, não possui a cor azul. E qual a cor, realmente, de todas as importâncias sutis diárias, que o homem relaciona à liberdade, sem saber, entretanto, com que tonalidade exata encontrará a cor do amor nos olhos da namorada..._


*Acidente ocorrido em 1986, em Pripyat, Ucrânia, numa usina nuclear denominada Chernobyl.

6 de abr. de 2011

Rompimento ( razão versus menestrel alado)


Racionalidade é um bem precioso, quanto a isso não há dúvida. Essa assertiva mais se acentua em minha vida quando noto determinadas panacéias livres, que se alastram qual rastilho de pólvora. O que está havendo? De que modo podemos obter algum raciocínio em meio a apupos loucos, danças que mais parecem uma viva denúncia de nosso lado racional desgovernado?

A mídia moderna apresenta-se como um canal surpreendente, onde circula uma gama extraordinária de mercadorias, heresias, cada empresa vendendo o que lhe é pertencente. E amor, cadê a lógica do amor? . Fé não é empresa;e a patifaria, os “dançarinos do Senhor”aproveitam e pintam a canecada total. Aí, diante das câmeras , que os impedirá? Acho deprimente o luxo, a proeminência, a construção de tanta quinquilharia, ao passo que o amor a outrem é deixado de lado, no alto mar do esquecimento...

Ah, talvez haja-se uma premiação superior, para centenas de pessoas se ajustarem a essa prática deprimente de “crer”. Crer, nestes modernos tempos, tornara-se uma prática, uma ação angariadora.. Há quem cognomine de “obras de Deus” as ovelhas dançantes no palco do Senhor! Por conseguinte, a gente dançante vive a martirizar a crença alheia, priorizando mais a liberdade de outrem do que a “pequena liberdade” que os tangencia. Já escutei depoimentos de amigos meus ,na seguinte certeza: Puxa, fulano que é ******, não me dá uma atenção pois sou *****. É certo ? Foi instituído um novo “mandamento” e nada me foi dito?

Cabeças, corpos e membros num coquetel de ignorância, fantasiados, (na baixada fluminense, creio que sofram abeça coma a alta temperatura), bailam durante três horas para que a eterna salvação seja obtida. Oh glória, haja disposição.. Ora, se ocorre dessa forma, se a igreja primitiva, se o antigo e verdadeiro apostolado nos legasse tal paradigma, certamente poderíamos dançar o avivamento que tanto mostram os templos modernos! Me pego rindo ao tentar imaginar Paulo rebolando o esqueleto, e Pedro com um pandeirinho...Mas não é dessa forma. Partindo dessa premissa , grita-me o consciente, filho da razão: após isso tudo,o que virá? Há as danças frenéticas, a gritaria ensurdecedora, batuques,a histeria contrária à razão..mas e depois disso? Será que a premiação exorbitante, prometida pelos “engravatados de plantão”, pelos “clows sem Shakespeare”, virá mesmo? Particularmente, vejo isso como uma forma de manietar os ignorantes, diante de quem quiser ver e compreender. Sim, é fato. Ora, se milhares de bênçãos, tantas casas próprias, tantas cadernetas rechonchudas fossem entregues aos fiéis dizimistas no decorrer de um único culto, o que restaria para ser-lhes dado nas próximas apresentações? Aí, acredito que o vendaval de discórdia perderia sua graça! Não denomino culto uma apresentação à la Baú da Felicidade!

Ah, os lençóis ungidos, as flanelinhas com a seguinte inscrição : Dê 20 hoje e depois Deus lhe renderá o dobro! Maravilha, então Deus tornou-se uma imensa, uma gigantesca marionete recheada de dinheiro e que ao ser tocada pela mão do pobre – necessitado, faz descer uma torrente de “bênçãos celestiais” contadinhas, geralmente em cédulas de 50...

Divisões, pré – tribulacionistas versus pós – tribulacionistas. Neologismos apimentados querendo explicar o que já é óbvio e notório ante nossas faces. Acidentes de caráter, panelinhas. Quebra de virtude. Preconceito das formas mais variadas – atingindo o semelhante por aquilo que faz, não pelo o que é. Separação, pequenina dosagem de vida, de liberdade. A ferocidade do instinto fanático procurando almas para consumir, afastando o homem de Deus, direcionando-o forçosamente à vontade humana. Ou será que a Deus importará 10 % de nosso suor? Quem já parou para analisar, que se cada indivíduo desses que outorga dez por cento de seu salário a uma instituição religiosa (em se tratando de Brasil, não sendo muita coisa o salário mínimo), se juntasse a outro indivíduo que faz o mesmo, e juntos montassem uma pequena instituição de auxílio ao próximo?Que maravilha seria!A carta branca do amor povoando os corações, no mútuo auxílio ao próximo. E disso agrada-se Deus. Auxílio ao próximo é obra de Deus, sim.

Em nome de Jesus ofertam , em nome de Deus preconizam a dor, em nome de Alá bombas explodem, em nome de não sei mais o que perdemos o rumo da vida. Prendemo-nos às crenças, abitolamos nossas atitudes mais sensatas e permanecemos anexados à falta de razão. Desprezamos a ciência em detrimento de dezenas de suposições. Sequer conseguimos pensar com mansidão, usando a nossa própria cabeça, que é um instrumento maravilhoso!Em nome de muito, deixamos de viver plenamente. Vivi boa parte desse exagero e de repente enlouqueci às antigas amizades conservadas nesse ideal maluco. Só que escapei. Quem preza trouxa é lavadeira. Deus não é caderneta do banco Itaú, e tampouco Lhe interessa o que podemos dar ou fazer...se isso muito bem conseguirmos, o que é altamente impossível. Sendo minha existência única, tratarei de vivê-la racionalmente, sem arrepender-me de pequenas suposições. A Deus devo satisfação. Aprisionado, não poderei alçar voo com asas que Ele em deu.

Dentro de quatro paredes não consigo enxergar o céu azul. E a liberdade tem a cor dos meus olhos._