2 de set. de 2011

Um Sono


Espero que toda noite seja pouca, que teus braços de mulher sejam mais altos que as estrelas que ninguém relatou.

Preciso que meus versos cantem temas sinceros, de um modo submisso, feito um escravo decorrente do espaço onde há quadros, tintas e vexames. Preciso, agora mais do que antes, de um parágrafo inovado, tecido por mãos sinceras. Preciso doutorar a fase da justiça, tatuada no coração dos mais fracos. Cessei com a água das crenças, mergulhei num fundo pântano. De lá extraí vozes moles, seres afobados no costume, placas inacabadas e a fórmula da poesia não descoberta. Trouxe uma pá para compor um conto. Isto será um conto na minha eternidade. Acredito sinceramente que a psicologia não apoiará um reles homem que quer desenterrar alguém que durma no imutável escuro, detrás da cortina das horas. Para isso há uma pá.

Passa o dia. Chegou a vez dos cabelos, o corpo espera o toque das mãos conhecidas (geralmente são calorosas as mãos que conhecemos). De repente, um montante de vozes ripostam o absurdo pelo lado de fora do meu apartamento:

_ É o amor do caos no pé do ouvido.

Por um momento caio no sono. E ainda não durmo.

25 de ago. de 2011

ELEGIA PARA O AMOR E O REENCONTRO

Lá no anfiteatro das árvores tranquilas, pasmadas com o sol,
O doce fruto me esperava e eu corria, para teus braços, para os braços das lágrimas
Enquanto do meu cérebro irrompiam amargas lições do mundo antigo,
Dito mundo onde eu poetava, cantor do escuro?
O longo tapete dos olhos semiabertos e me acenava você , curiosa,
Detrás da sombra do edifício circundando o monte do meu ser,
O monte da terra, o monte das eras,
Como eram teus sonhos enormes exclamações sentenciais!
Entre os infernos, os choques, centauros,
Pingavam nódoas femininas em borracha, citosina, guanina,
Na borracha do céu - cônscias e sérias almas endividadas
Que impregnam de fome o sonho dos corpos infantis!
A grave poesia séria da bandeira desnuda, destarte alguma frase?
No profissionalismo dos corpos seguiremos avante
Arfantes, dois arados no sistema capitalista, arados exaustos,
Dos quais descansam os discos pratas no infinito céu dos burocratas pacificados !
Ah, mulher sem ser , mulher sem ter,
A mulher para mim, a mulher de mim...
Cuja finalidade corpórea serve para atingir vozes e surdinas,
Cujo caminho seu é ir-se de encontro ao além existente nos povoados
Do sexo entretido com o encontro das águas,
De repente aquela cobiça pura de olhar água morna e sair cantando,
E eu deitando contigo amada, na relva dos danos,
E nós dois, ambos capitalistas sem bandeiras , olhando uma viela de almas
E um caminho empoeirado com seu destino certo,
Que nos levará a nenhuma habitação, a nada.


E na bandeira do amor no caminho sentiremos , exaustos , a importância do céu!
O céu e o reencontro........

1 de ago. de 2011

( Depoimento ) Quando fatos rotineiros nos conduzem ao aprendizado inevitável..

Sabe, às vezes eu belisco meu coração, protelando ansiedade e sonhos, querendo buscar a compreender o que sinto por você e que, por ser de imensurável dimensão, coloca-se contraparente a qualquer definição.

Todo homem que algum dia queira formar uma família, encabeçar um lar, ser dependente do carinho da mulher que ama, deveria ler este pequeno relato breve. Trata-se de um manual elaborado por quem aprendera um pouco.

Vejo pelas ruas tantos homens brutos, de corpo malhado, valentões, que na verdade não sabem calcular a massa da miséria de amor que lhes contorna o coração , tornando-os densos, desumanos, despreocupados até mesmo com os beijos. Não estou deitando crítica voltada à personalidade, até porque muitos garantem o sustendo do lar andando maltrapilhos e brutos. Estou falando de carinho. Os beijos pesam, têm número atômico definido na periodicidade do afeto. Todo homem que se preza deveria, pelo menos uma única vez, fazer poesias. É verdade, vez que os papéis trazem um pulso de masculinidade até então desconhecida pelos homens. Reconheço que atualmente isso não é tido como verosimilhança emocional, já que as moedas importam sobremaneira, ficando as palavras por escanteio. Todavia é da palavra que nascem as moedas. Todo homem deve dar rosas às vezes, pegar na mão, apreciar o vazio de lua que se instaura pela madrugada e que se incha, transformando-se momentos depois numa manhã agradável de terça feira . Incrível, custei a crer que sou dependente das luas que se incham.

O homem deve respeitar as cartas antigas, não fazer por onde ressurgir destemperamento de humor de coisas envelhecidas, pois elas não falam nem temem, são abióticas. Há homens que fazem um verdadeiro espetáculo machista com velhas cartas de amor!E nem sabem que o fato de terem se casado, sido pais com a receptora das cartas, dar-lhes-á segurança plena até o fim da vida. O amor presente vale mais que um fato antigo dissolvido em papel. O homem deve exclamar de surpresa ao ser pai, ver detalhadamente aquela porçãozinha humana que advém do ventre de sua amada, que contém características suas e da mulher (um ser que levará adiante a prova material de que mais uma história de amor deu certo, vencendo o caos do mundo).Os filhos provam a cumplicidade dos pais, mesmo que exista ela durante o coito, onde gemidos funcionam como declarações carnais pulsantes e sinceras.

Ao homem deve importar o sexo como cumplicidade, não como uma amostra de potencialidade, contando quantas “consegue tirar”. É mais nobre que ele conte suas façanhas transando sozinho. Ao homem deve estar inerente a busca pelo corpo da mulher, não só nas horas de desejo ostensivo. Todo momento pode ser um desejo ostensivo, e nas horas de “desejos negativos” é para o corpo feminino que o homem correrá. Ao homem deveria importar menos a lata de doce, a roupa engomada, os céus modorrentos de março, e trocar tudo isso por um afinado violão. A música é a única matemática que nosso cérebro abarca voluntariamente. Deve o homem aprender piano, ser corajoso nas horas necessárias, zelosamente sentimental com a mulher que ama (geralmente confundem zelo com aprisionamento).

Deve ser ele livre para compor um conto, contar piadas sábias , reparar o crescimento de uma árvore – ser menos alcoólico – aprendendo que fermentação nata nasce de um beijo explosivo, que o amor é sentido em tempo presente e que não poderá ressurgir de repente, na maneira que melhor lhe apraz, detrás da estante, ou de uma velha caixinha de madeira desbotada. Ver que tais “cartinhas” funcionam análogas ao curso do rio perene, pois a cada ano que ele reparar no rio, verá que o efeito corrente da água independerá do intervalo de tempo que ele, homem curioso, estipular para reparar nesse fenômeno corriqueiro . De 30 em 30 anos o rio correrá sempre à mesma direção. Assim como é incompreensível se querer compreender as estrelas, garanto que ele estará carequinha quando aprender que as estrelas sempre brilharão, contraparentes à sua escolha.

O homem deve ser sereno, correr no sereno, manjar mais os fatos (às vezes incorporar-se nos fatos), ser mais cúmplice com a carne feminina, vendo abaixo da carne sensual a religião para a qual seu espírito retamente se inclinara; encontro homens que ao invés de se juntarem às mulheres, distanciam-se cada vez mais, confundindo minha modesta acepção mundana. O homem mais carente que pude conhece morrera aos trinta anos, abandonando casa e filhos, e essa sofreguidão vi dentro de seus olhos. O homem não ser preenchido nem vago. Tampouco um gentleman atrás dos talheres dourados, mas sim um verdadeiro homem atrás dos talheres de alumínio. Veja que a taça de cristal não vale mais que a taça de vidro - ambas têm a mesma função. E que, na hora em que ele, homem curioso, se detiver com sua imagem diante do espelho, faça por refletir mais um ponto, não laborando dogmas filosóficos, sentenças matemáticas sem fundamento, mas usando a simplicidade que Deus lhe deu : que é melhor o amor, que origina sabedoria a ter que ser máquina de produção. Que o sexo não é produção carnal – sim uma forma de cumplicidade a dois que ele jamais compreenderá, e que isso será cobrado nas horas de íntima solidão. Que às vezes é necessário que o frio entre debaixo das cobertas na madrugada e que, quando isso ocorrer, ele abrace a mulher que está do teu lado e veja que valeu a pena correr pelo sereno, que seu filho nascera, que a cumplicidade carnal- amorosa é deveras importante. Antes dessa conclusão surgir, é mister que esteja relaxado, lendo um livro, pensando na amada. Sendo um bom homem, de coração musculoso. Esteja vestido a caráter.


E, dessa forma, ficará extático como estou e haverá um ponto a seu favor: quando tudo isso vier, ele realmente terá aprendido. Aprendido que o é necessário aprender.

27 de jul. de 2011


Abandonei a comodidade serrana durante toda a última terça feira, data em que aniversariei , desprovido de compromissos trabalhistas e estudantis. Almejei respirar novamente a fragrância dos eucaliptos da Serra de Paracambi, sentado na poltrona do ônibus, levando mentalmente um esboço do lado harmônico de uma canção polonesa em pensamento e pensando, sobretudo, no meu alvo, no motivo pelo qual eu desejei descer – e o fiz com coração entregue à liberdade. Descendo entre folhagens novas, desmerecendo o caos dos veículos adjacentes ao ônibus, dos quais pintavam caras embrulhadas, seres hediondos.

Todavia, ao chegar na casa da minha namorada, como de praxe, fui acometido de uma curiosa surpresa, a de passar um dia semanal num shopping center em Nova Iguaçu, entregue às carícias femininas, a um bom papo juvenil (em que acabei vendo a última aparição de Harry Potter nos cinemas, aquele bruxinho de óculos),compreendendo devagar todo esse aparato místico dos bruxos, os monstros incríveis, gigantes bocudos, lanças afiadíssimas, graça, cor, som além de efeitos sonoros e visuais (usando um óculos flexível – onde rememorei uma matéria lançada na Revista Veja, contando o surgimento do Cinema 3D). Entregue a todo esse quê dinâmico de cumplicidade com a liberdade, o dia correra.

O filme acabara na cena de um beijo meu, dado na penumbra das poltronas.

Um novo oxigênio, uma modalidade de pensamento em que as correntes responsabilidades diárias não conseguem pesar de nenhuma forma. Andando pelas lojas, vendo mimos, roupas, acessórios, senti-me um homem refugiado na paz das coisas simples, que só um refugiado de bem consegue sentir. Nutri esperança por entre os manequins, plasmei a visão de uma tarde morrendo, refletida nos pisos do hall de entrada, por onde sambavam pés e mais pés desorientados, de onde provinham vozes conturbadas, enquanto os braços de minha namorada cruzavam os meus numa anedota romântica digna de um poema.

Balé de luzes, no lume do delírio vi que todas as mesas sintetizavam um alvoroço urbano, ao passo que eu configurava um mundo pleno composto de beijos, palavras doces, toques suaves, tudo que proporciona a um espírito são a vontade de seguir adiante. E nas vitrinas, todavia, sambavam sombras de pessoas densas e vazias. Apalpo no bolso a chave do apartamento ladeada pelo celular. Tudo em paz. E nas vitrinas algo que um apostador desejaria segurar em mãos, apertando. Talvez seriam as sombras?Por um acaso eu olhei algum número premiado, esboçando vantagens na alma, antevendo praias lindas, depoimentos irrevogáveis de um homem vivendo na sombra? Algo que Anton Pavlovich Tchekhov explicaria com perfeita prosa materialista – coisa que o meu coração não consegue esboçar muito bem; mesmo que seus contos tenham cor amarelada, prefiro o Sol que também tem a cor do ouro. E esse Sol estava nos olhos de Sarah, inda mais reluzente, desejando-me: “Feliz aniversário, meu amor”._

25 de jul. de 2011

O Café de Surata (Bernardin de Saint-Pierre )

Trago esse conto à tona, sacudindo-lhe as poerias do ginásio. Um retrato digno feito das diversidades religiosas. Parafraseando Pierre: "..aquele, portanto, que desfruta da luz divina, espalhada por todo o universo, não despreze o supersticioso que da mesma só distingue um raiozinho em seu ídolo, nem mesmo o ateu que está inteiramente privado dela, de medo que em punição de seu orgulho não lhe aconteça como àquele filósofo que, querendo apossar-se da luz do céu, cegou e viu-se reduzido, para se orientar, a servir-se da candeia de um negro.”."



http://contosdocovil.wordpress.com/2008/06/03/o-cafe-de-surata/


Para onde irá essa canção cuja nota principal reveste o sole a lua, cuja luminosidade harmônica abandona os céus e cai nos meus braços esperançosos? Braços de lua que perguntam a respeito da eficácia presencial de um tempo que não mais há... De repente a colheita perfeita, a estatura da mulher benquista que me outorgará longos gestos noturnos entre seus lábios; seus braços e suas luas aparecem brilhando na janela do quarto infinito.. e dessa forma consigo, enfim, ser um mortal. E , quem sabe, não amanhecerei?

3 de jul. de 2011

A JANELA QUE ME CRIOU

Sem a amplidão e esquecimento ,a plenitude da calmaria urbana desenrola-se com pertinaz eficácia , clara, límpida , tal qual o imenso janelão da antiga casa- grande da fazenda onde criei-me , pelos lados de Tinguá, bairro resoluto em matéria de produção rural. Presumo que aqueles paredões pétreos e úmidos, sedimentados na permanência cronológica, ainda perpetuam os fragmentos que merecidamente são evocados pelo coração da lembrança. O que poderia ser sem amplidão, diante desse fato? A que meu coração deseja amarrar-se com gás sorrateiro, não antevendo a dolorosa solidão de todo apego ao pretérito ?

Porém, declaro que tentei perguntar todo esse quesito de pretérito patológico à cidade, anfitriã desses espaços , acerca do que eu poderia arrumar de pretexto , adiando todo e qualquer contato emotivo com esse paisagismo adormecido, por sempre atual e natural. Cada ser humano urbanizado deve refletir pautado em seus ideais, filosofias solidificadas, amores pungentes, coisas que os olhos anexam na surpresa dos reencontros noturnos, de modo que o coração possa aquilatar , com zelo e pronta atenção, a joia cintilante que nascerá dessa reflexão.

O nascimento de uma joia galvânica , sem tanto quilate, desprovida de enfeite - assim como a paisagem do pretérito se julga configurada no presente . Não atrevo-me a engenhar os vegetais, os humanos, nem metais nem veículos densos. Vejo, outrossim, a substância necessária à minha vitalidade cidadã , que encontra-se arraigada no solo, encimando as possibilidades de deserto e medo, detendo-me da caminhada por estradas turvas e escuras. O que gostar, o que posso fazer , o que contribuir para que os imensos paredões da Fazenda São Gonçalo da Serra retornem oriundos do genérico olimpo, trazidos pela falta flamejante do cheiro pesado de vegetação impregnada de orvalho – no cio material de um modesto latifúndio vassourense . Luzes, o que poderiam ser? Feixes solteiros, constituídos imaterialmente, estilhaçados no raciocínio vadio das cercas e , no entanto , meu testemunho de breve existência sai à caça de uma pretensão de memória. Encontro jacarandás, a trêmula mão de Ernani , estimado boiadeiro que tangia junto a mim uma determinada parcela de garrotes nelores, a qual não mais saberei especificar com exatidão. Não seriam só as viagens, pelo que viagens assim não traduzem um homem – Ernani eu traduzo pela força motriz do peito – era ele o elemento uno, precípuo, do esforço e da dedicação à terra , ao solo agrário, merecedor de um capítulo especial, no qual farei uma somatória de todo seu aparato humano não produtor. Trarei a perseverança de um povo modesto, liquefeito em dedicação, em préstimo, que são o prêmio exumado desta terra. Não possuem títulos, lotes arrendados, mas lidam como toda sorte de rudimentos agrários. São permanentes, inteligentes, conseguem tocar com uma sutileza nunca vista no ponto G do coração. É exatamente o que o lado urbano ainda não conhece – a poesia que brota do solo, irrompendo em versos por intermédio das mãos calejadas de Ernani, ou na sua fala extensa contanto causos impossíveis, manobras, viagens, terras e gentes que jamais vi.

Portanto, relembro algo para a fome dos meus olhos, razão para meu instinto , sonoridade boa para meus ouvidos jovens que tiveram de converter-se à crença urbana, matriz desta cidade. A persistência dos momentos, o azedo elementar com o odor da naftalina que defumava o pesado armário de madeira roxa do meu quarto. Os longos contatos com Monteiro Lobato, escritor paulista que me vinha às mãos através de uma coleção de obras suas, editadas na década de quarenta – nascendo também meu apego arredio à literatura.

A cidade crê, as paisagens creem e existem ainda mais acentuadamente, a ponto de notarmos e sentirmos, agindo concomitantemente cada cidadão perpétuo que sabe venerar com êxito o valor de uma terra histórica. A filosofia do tempo é perfeitamente idêntica à janela da fazenda onde criei-me e um dia a minha criança interiorizada entenderá bem o valor de uma ação : a de relembrar a janela que me criou._